É preciso tirar o racismo de campo

O caso do jogador Luighi, do sub-20 do Palmeiras, demonstra que todas as instâncias que estão presentes ou circulam o futebol precisam se ver afetadas para tomar medidas contra o racismo

Alexandre Dantas, Helton Souto e Vidal Mota Jr., cofundadores do Instituto DACOR

O racismo no futebol latino-americano é uma realidade persistente e preocupante, com diversos casos que, até o momento, não receberam a devida punição. Apesar dos esforços de entidades e campanhas de conscientização, muitos episódios continuam impunes, refletindo a falta de medidas efetivas para combater este crime, principalmente contra os atletas negros.


No Brasil, em 2014, o goleiro Aranha, ex-Santos, foi vítima de insultos racistas durante uma partida, mas as investigações não avançaram de forma significativa, deixando o caso sem resolução. Na Argentina, nos jogos com times brasileiros, isso tem sido um problema recorrente. Apesar das denúncias, as punições foram brandas ou inexistentes, demonstrando a falta de rigor das autoridades esportivas. Esses casos são apenas a ponta do iceberg, já que muitos outros não chegam sequer a ser noticiados ou investigados.


A impunidade em casos de racismo no futebol latino-americano reforça a necessidade de políticas mais duras e eficazes, além de uma mudança cultural profunda. Sem punições exemplares e conscientização, o esporte continuará a ser palco de discriminação, afetando não apenas os atletas, mas toda a sociedade.

Jogador denuncia racistas durante a partida da Libertadores Sub-20


E ontem, dia 07 de março, ocorreu, na Taça Libertadores sub-20, mais um crime de racismo no futebol. Dessa vez, o atleta Luighi, do Palmeiras, é que foi o alvo escolhido por parte de torcedores que assistiam à partida. Ao ser substituído, foi ofendido verbalmente e recebeu uma cusparada. A imagem dele no banco de reservas, aos prantos, e a sua fala emocionada e contundente, ao ser entrevistado ao final do jogo, evidenciam tristeza, dor e revolta, muita revolta, principalmente, em relação à Confederação Sul-Americana de Futebol, que, inclusive, em nenhum momento ao longo da transmissão recuperou a imagem do crime. Quem o fez por inúmeras vezes foi a emissora que transmitia o jogo. Em tempo: a comentarista que fazia o jogo é negra. Ouvi-la chorar, tentando comentar o episódio, foi mais uma entre as tantas dores excruciantes que o racismo e sua consequente impunidade provocam nas pessoas que são vítimas desse crime, que entendem o racismo como crime e que permanecem lutando para enfrentá-lo. Em tempo: a Confederação Sul-Americana de Futebol, um dia depois do ocorrido, anunciou que irá implementar medidas disciplinares devidas. Será que dessa vez haverá alguma ação efetiva por parte da entidade? Ou se trata somente de um discurso, apenas, que não irá gerar efeito algum?

A entrevista de Luighi tem 1 minuto, mas é fundamental pensar as muitas camadas que valem por horas e horas de discurso: Luighi está indignado e revoltado, sua revolta é acompanhada da tristeza e o leva às lágrimas numa cena forte, sim, mas não venham falar em vitimização porque ele transborda coragem ao perguntar se nada será dito, se nada será feito, de novo. É coragem diante das câmeras e diante de um microfone porque, de alguma forma, esse menino, quase homem, negro, sabe que fala em nome de tantos. Quantas pessoas nesse país trariam sua tristeza, indignação, raiva e coragem se tivessem câmeras e microfones. Ele fala por todos nós. E quando ele diz “isso aqui é a formação” é muito forte e importante porque são pessoas se formando, isso é educação, isso é caminho se criando e não podemos deixar que seja dessa forma. Prestem atenção ao discurso de Luighi, de verdade. E, sabemos, ele só queria jogar futebol. O menino quase homem não se preparou no dia de ontem para isso que viveu. Ele só quer jogar futebol e se formar como pessoa, atleta, cidadão exercendo sua profissão.


Para enfrentar isso tudo, os caminhos não devem ser apenas pela ótica individual. Não é a pessoa racista contra a pessoa que sofreu o racismo. Não apenas. O torcedor racista, o CPF como dizem, precisa, sim, sofrer e lidar com a força das leis sem dúvida alguma. A pessoa que sofreu o racismo precisa ser ouvida, cuidada, amparada. E é preciso outras medidas, que sejam políticas e institucionais. Vejam, o racismo é sistêmico. Não estamos falando em uma medida ou outra, mas de medidas também sistêmicas. As instituições precisam se sentir afetadas e serem afetadas. O clube do torcedor precisa ser punido: mando de campo, perda de pontos, risco de rebaixamento, multas. E precisam perder em dinheiro, em imagem e no campo esportivo. Se o seu time corre risco de ser punido, a pessoa pensará duas vezes antes de fazer mal à sua paixão. Não é? Se as instituições são responsabilizadas e penalizadas, elas cuidam, elas se preservam e elas coíbem porque elas querem se proteger. É preciso afetar essas estruturas. Federações, confederações, entidades máximas precisam ser responsabilizadas e punidas por meio de leis municipais, estaduais, federais, supranacionais. Parar o espetáculo, a instituição atleta de futebol, se ela enxergar que isso a afeta, e não é um caso individual, ela tem força para tirar o time de campo. Parar o espetáculo, parar a máquina. Isso afeta patrocinadores, transmissores, torcidas, afeta quem lucra com o espetáculo. Todas as instâncias que estão presentes ou circulam o futebol precisam se ver afetadas para tomar medidas em seu âmbito. Isso é sistêmico, isso é fazer movimento. E isso é demonstrar indignação diante do inaceitável, é se responsabilizar e criar uma nova estrutura contra o racismo no esporte mais popular do mundo.