
Quem foi Beatriz Nascimento?
Beatriz Nascimento foi uma historiadora, poeta e ativista fundamental para o pensamento negro no Brasil. Nascida em Aracaju (SE) e criada no subúrbio carioca, foi uma das primeiras intelectuais negras a pesquisar os quilombos como espaços de autonomia, resistência e elaboração de identidade negra no país. Sua perspectiva rompe com a visão tradicional de que os quilombos foram apenas locais de fuga, destacando-os como formas de organização política e territorial negras. Suas contribuições são fundamentais para entender a identidade negra como instrumento de autoafirmação racial, intelectual e existencial.
Trajetória acadêmica
Em 1971, já no Rio de Janeiro, formou-se em história na Universidade Federal do Rio de Janeiro e, na sequência, tornou-se professora da rede estadual fluminense. Nesse momento, começa seu percurso com a pesquisa científica que marcaria pra sempre os estudos sobre questões étnico-raciais.
A historiadora aliou sua vida acadêmica à militância, fundando o Grupo de Trabalho André Rebouças na Universidade Federal Fluminense (UFF) e também o Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN). Foi contemporânea e partilhou pesquisas e militâncias com nomes como Lélia Gonzalez, Eduardo de Oliveira e Hamilton Cardoso.
A identidade negra como instrumento de autoafirmação racial, intelectual e existencial.
Entre as décadas de 70 e 80, foi presença constante na retomada dos movimentos sociais negros organizados. Manteve vínculo, inclusive, com o Movimento Negro Contra a Discriminação Racial, que mais tarde deu origem ao Movimento Negro Unificado.
Os quilombos foram seu grande objeto de estudo. Beatriz pensava os territórios de resistência de escravizados e seus descendentes de maneira científica, mas também a partir de sua trajetória pessoal e do seu ativismo político antirracista. Ela defendeu o reconhecimento e a titulação das terras quilombolas, o que viria a acontecer a partir de 1995.
Beatriz também teve um papel fundamental nas reflexões e ações referentes à denúncia e ao combate ao racismo numa sociedade entorpecida pelo mito da democracia racial.
Ela também foi uma figura central para pensar as práticas que pesavam sobre os corpos negros, sendo uma das expoentes e precursoras brasileiras do que hoje conhecemos como feminismo negro. Em visita ao Brasil, a filósofa e ativista Angela Davis refere-se a Lélia Gonzalez e a Beatriz Nascimento como “fundadoras” ao declarar que “o feminismo negro nasce no Brasil”, em boa parte graças aos esforços delas.
Beatriz morreu em 1995, aos 52 anos, vítima de um feminicídio. Foi assassinada a tiros pelo namorado de uma amiga a quem havia aconselhado terminar o relacionamento por estar sofrendo violência doméstica. Seu legado ajudou a dar luz a pessoas negras na história como protagonistas e sujeitos de conhecimento, da arte, da ciência e da política.
DACOR Indica
Beatriz Nascimento: Uma história feita por mãos negras

O livro “Uma história feita por mãos negras” reúne textos inéditos e entrevistas de Beatriz Nascimento, organizados por Alex Ratts. Uma obra essencial para quem quer conhecer sua produção intelectual e sua sensibilidade poética.
Indicamos também o documentário Ori (1989), dirigido por Raquel Gerber, com Beatriz Nascimento como roteirista e protagonista. O filme entrelaça sua história de vida com a história do movimento negro no Brasil e nas diásporas africanas.