Câncer de mama e desigualdade racial: as barreiras no acesso ao cuidado

Pesquisas brasileiras mostram diferenças no diagnóstico, no início do tratamento e na sobrevivência de mulheres negras. Enfrentar essas desigualdades também precisa fazer parte do Outubro Rosa.

A desigualdade racial no câncer de mama aparece em diferentes etapas do cuidado. Estudos brasileiros identificam maior proporção de diagnósticos em estágio avançado entre mulheres pretas, demora na investigação de alterações suspeitas e diferenças no acesso à reconstrução mamária.

Esses resultados ampliam o debate sobre o Outubro Rosa. Além de informar sobre sinais e exames, é necessário discutir as condições que permitem chegar ao diagnóstico e receber tratamento adequado. Orientar a população a procurar atendimento precisa vir acompanhado de serviços preparados para acolher, investigar e dar continuidade ao cuidado.

Diagnóstico avançado e sobrevivência: o que mostram os estudos

Uma pesquisa nacional publicada em 2024 na revista The Lancet Global Health analisou 59.811 mulheres com câncer de mama que iniciaram tratamento no SUS entre 2008 e 2010, com acompanhamento até 2015.

Entre as participantes, o diagnóstico em estágio avançado — estágios III e IV — ocorreu em 60,3% das mulheres pretas, 55,5% das pardas e 48,6% das brancas.

A sobrevivência estimada em cinco anos após o início do tratamento também apresentou diferenças: 64% entre mulheres pretas e 74% entre mulheres brancas. Essa medida considera mortes por todas as causas durante o acompanhamento.

O estudo incluiu pacientes que receberam quimioterapia, radioterapia ou ambas. Seus resultados descrevem uma população e um período específicos, portanto não devem ser interpretados como taxas atuais de todas as pessoas com câncer de mama no Brasil.

Consulte a pesquisa no repositório do INCA.

Mulheres negras esperaram mais pela biópsia em pesquisa recente

Uma pesquisa da Unicamp, divulgada em 2026, oferece um retrato mais recente de uma etapa decisiva do diagnóstico: a realização da biópsia após um exame suspeito.

O trabalho entrevistou 190 mulheres em duas unidades de referência da região de Campinas, em São Paulo, entre julho de 2023 e fevereiro de 2025. Foram incluídas 80 mulheres negras, reunindo pretas e pardas, e 110 mulheres brancas.

O tempo médio entre o primeiro exame suspeito e a biópsia foi de 77,7 dias para mulheres negras e 53,7 dias para mulheres brancas. A diferença foi de aproximadamente 24 dias.

O resultado é regional e não representa uma média nacional. Ainda assim, aponta uma desigualdade concreta no percurso até a confirmação do diagnóstico. A pesquisa foi desenvolvida por Mariana Roberta Alves de Almeida, sob orientação da professora Diama Vale, na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.

Leia a divulgação da pesquisa pela Unicamp.

A demora para iniciar o tratamento também tem recorte racial

O tempo entre o diagnóstico e o início do tratamento é outra etapa que exige atenção.

Um estudo publicado em 2015 em Cadernos de Saúde Pública, com 137.593 mulheres diagnosticadas em 239 hospitais brasileiros entre 2000 e 2011, identificou maior chance de atraso entre mulheres classificadas como não brancas. A pesquisa considerou atraso o intervalo superior a 60 dias entre o diagnóstico e o início do tratamento.

Embora os dados sejam históricos, o estudo ajuda a compreender como as desigualdades se manifestam ao longo da assistência oncológica. Seus resultados devem ser lidos junto a pesquisas recentes e ao monitoramento contínuo dos serviços.

Consulte o estudo em Cadernos de Saúde Pública.

Reconstrução mamária: diferenças persistiram em 2024

Uma análise dos registros de cirurgias do SUS entre 2010 e 2024, publicada em Epidemiologia e Serviços de Saúde, também encontrou desigualdade racial na reconstrução mamária.

Em 2024, a relação entre o número de reconstruções e o de cirurgias classificadas pelo estudo como mastectomias foi de 53,9% entre mulheres negras e 69,9% entre mulheres brancas e amarelas, agrupadas na análise.

Esse indicador compara quantidades de procedimentos registrados. Ele não significa que essas porcentagens de pacientes tenham recebido reconstrução individualmente, pois não houve acompanhamento de cada pessoa para estabelecer essa relação. A exclusão de registros sem informação de raça ou cor também é uma limitação reconhecida pelos autores.

O resultado reforça a importância de acompanhar o acesso ao cuidado para além da primeira intervenção.

Leia o estudo sobre reconstrução mamária no SUS.

Câncer de mama não atinge apenas mulheres

Embora seja muito mais frequente em mulheres, o câncer de mama também pode ocorrer em homens cis e homens trans. Pessoas não binárias também precisam de orientação conforme suas características físicas e sua história clínica.

Segundo o INCA, a recomendação de mamografia de rotina inclui homens trans e pessoas não binárias designadas no feminino ao nascer que mantêm as mamas. A indicação de exames em outras situações deve ser avaliada individualmente. Para homens cis, não se aplica automaticamente o calendário de mamografia de rotina recomendado para mulheres.

Independentemente da identidade de gênero ou da idade, uma alteração suspeita precisa de avaliação. www.gov.br

Quando fazer mamografia pelo SUS?

É importante diferenciar o exame de rotina, realizado sem sintomas, da investigação de uma alteração já percebida.

Sem sintomas e sem risco elevado

A orientação do Ministério da Saúde para a mamografia de rotina é:

  • Dos 50 aos 74 anos: realizar o exame a cada dois anos.
  • Dos 40 aos 49 anos: é possível fazer o exame pelo SUS, mesmo sem sintomas. A decisão deve ser compartilhada com o profissional de saúde. A orientação nacional não estabelece um único intervalo de repetição para todas nessa faixa etária.
  • A partir dos 75 anos: avaliar individualmente a realização e a continuidade dos exames, considerando riscos e benefícios. www.gov.br

Com histórico familiar ou risco elevado

Casos de câncer de mama ou ovário na família devem ser informados à equipe de saúde. Dependendo da avaliação de risco, pode ser necessário começar o acompanhamento antes da idade habitual, utilizar outros exames ou realizá-los com maior frequência.

A idade de início e o intervalo entre os exames não são iguais para todas as pessoas com histórico familiar. A equipe considera, entre outros fatores, quais familiares tiveram a doença e a idade em que receberam o diagnóstico. bvsms.saude.gov.br

Como buscar atendimento no SUS

A Unidade Básica de Saúde (UBS) do território é a porta de entrada para avaliação, orientação e encaminhamento.

Procure atendimento se perceber caroço na mama ou na axila, saída espontânea de líquido pelo mamilo, especialmente com sangue, retração do mamilo ou mudanças na pele e no formato da mama.

Não espere a idade da mamografia de rotina nem o próximo exame agendado para investigar um sintoma. A equipe avaliará quais exames são adequados para a situação e encaminhará ao atendimento especializado quando necessário.

Após realizar os exames, retorne à unidade para receber a avaliação dos resultados e as orientações sobre os próximos passos. www.gov.br

Equidade racial precisa fazer parte do cuidado

As pesquisas apresentadas têm períodos, populações e métodos diferentes. Em conjunto, mostram a necessidade de investigar as barreiras que mulheres negras encontram em etapas importantes da assistência.

Para os serviços de saúde, isso significa acompanhar os tempos de espera por raça ou cor, melhorar o preenchimento dos registros e rever práticas que dificultam o acesso. Também exige escuta das queixas e continuidade do atendimento após cada encaminhamento.

Neste Outubro Rosa, o compromisso com a saúde precisa incluir a responsabilidade das instituições por enfrentar o racismo e garantir cuidado oportuno, com acolhimento e sem discriminação.