No especial Vozes Negras da Democracia, o Instituto DACOR apresenta a trajetória da professora e ambientalista que levou a defesa dos povos da floresta aos espaços de decisão do país.
A trajetória de Marina Silva conecta o trabalho no seringal, a organização dos movimentos sociais e a construção de políticas públicas. Mulher negra e amazônida, ela atuou como professora, vereadora, deputada estadual, senadora e ministra, além de disputar a Presidência da República em três eleições. Sua história permite discutir quem participa das decisões políticas e quais experiências são consideradas na definição dos rumos do Brasil.
Do seringal ao acesso à educação
Marina nasceu em 8 de fevereiro de 1958, na comunidade de Breu Velho, no Seringal Bagaço, em Rio Branco, no Acre. Desde criança, participou da extração de látex, do trabalho na roça e das tarefas domésticas. Na comunidade onde cresceu, não havia escola.
Na adolescência, mudou-se para a cidade de Rio Branco em busca de tratamento de saúde. Acolhida por religiosas, trabalhou como empregada doméstica enquanto estudava. Posteriormente, formou-se em História pela Universidade Federal do Acre e tornou-se professora, conforme registra sua biografia oficial.
Alfabetizada aos 16 anos pelo Mobral, Marina prosseguiu nos estudos até chegar à universidade. Em seu discurso de despedida do Senado, em 2010, relembrou esse percurso e sua experiência como professora do ensino médio.
A defesa da floresta nasceu da luta por direitos
A aproximação com as Comunidades Eclesiais de Base e com lideranças sindicais contribuiu para sua formação política. Em 1985, Marina ajudou a fundar a Central Única dos Trabalhadores no Acre, ao lado de Chico Mendes, assumindo a vice-coordenação da entidade.
Marina também participou dos empates, mobilizações pacíficas nas quais seringueiros e suas famílias resistiam ao desmatamento e à expulsão de seus territórios. Proteger a floresta significava preservar as condições de trabalho e os modos de vida dessas comunidades.
Após o assassinato de Chico Mendes, em 1988, continuou defendendo a criação de reservas extrativistas. Essa atuação é reconhecida pela Fundação Goldman, que lhe concedeu seu prêmio ambiental em 1996.
Dos movimentos sociais ao Senado
Em 1988, Marina foi eleita vereadora de Rio Branco. Dois anos depois, conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa do Acre. Em 1994, aos 36 anos, foi eleita senadora, tornando-se a mulher mais jovem eleita para o Senado até então. Foi reeleita em 2002.
No Parlamento, sua atuação incluiu propostas voltadas à proteção da biodiversidade. É de sua autoria o Projeto de Lei do Senado nº 306, de 1995, que buscava regulamentar o acesso aos recursos genéticos brasileiros. A iniciativa demonstra como a pauta ambiental passou a integrar seu trabalho legislativo.
A construção de políticas públicas ambientais
Marina assumiu o Ministério do Meio Ambiente em 2003 e permaneceu no cargo até maio de 2008. Durante esse período, foram estabelecidos instrumentos importantes para a proteção ambiental brasileira.
Entre eles está o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal, o PPCDAm, lançado em 2004. O plano articulou diferentes órgãos do governo para enfrentar o desmatamento. Em 2007, foi criado o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o ICMBio, responsável pela gestão das unidades de conservação federais.
O reconhecimento internacional de sua atuação incluiu o prêmio Campeões da Terra, concedido pela ONU em 2007. A organização destacou a proteção da Amazônia e a atenção às populações que dependem de seus recursos naturais.
Uma mulher negra na disputa pela Presidência
Marina disputou a Presidência da República em 2010, 2014 e 2018. Em 2014, inicialmente candidata a vice de Eduardo Campos, assumiu a candidatura presidencial do PSB após a morte dele em um acidente aéreo. Terminou o primeiro turno com mais de 22 milhões de votos.
Também participou da construção da Rede Sustentabilidade, que obteve registro no Tribunal Superior Eleitoral em setembro de 2015. Suas candidaturas deram projeção nacional a uma liderança negra cuja formação política estava ligada aos trabalhadores da Amazônia.
O retorno ao governo e a atuação atual
Eleita deputada federal por São Paulo em 2022, Marina voltou ao Executivo em janeiro de 2023, à frente do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Sua segunda passagem pela pasta se estendeu até abril de 2026.
Durante essa gestão, o desmatamento na Amazônia apresentou redução. A estimativa divulgada para 2025 foi de 5.796 quilômetros quadrados, aproximadamente 50% abaixo do registrado em 2022. O resultado corresponde a ações de diferentes instituições, incluindo fiscalização, monitoramento e políticas de prevenção. Os números foram divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente, via Agência Gov.
Em 1º de abril de 2026, Marina reassumiu o mandato de deputada federal. Na Câmara, integra a Bancada Negra e a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. Em outubro, disputou o Senado por São Paulo, mas não foi eleita. Seu mandato de deputada corresponde à legislatura de 2023 a 2027.
Representatividade e o direito de exercer o poder
A presença em cargos públicos não impediu que Marina enfrentasse tentativas de desqualificação. Em maio de 2025, durante uma audiência no Senado, ouviu que deveria “se pôr no seu lugar”. O episódio foi classificado pelo Ministério das Mulheres como violência política de gênero e raça.
Sua trajetória convida a refletir sobre as condições de participação das mulheres negras na política. O acesso aos espaços de decisão precisa ser acompanhado do direito de falar, propor, discordar e exercer suas funções com respeito.
Ao apresentar essa história no especial Vozes Negras da Democracia, o Instituto DACOR destaca a contribuição de experiências historicamente excluídas dos centros de poder para o debate público e para a construção de políticas que respondam às necessidades da população.
