Intelectual, artista e militante, Zélia Amador de Deus criou uma das imagens mais potentes para compreender a trajetória do movimento negro brasileiro: as teias de Ananse.
Em sua produção, os descendentes de africanos na diáspora são herdeiros dessa divindade-aranha, capazes de preservar memórias, produzir estratégias e estabelecer conexões para enfrentar um racismo que constantemente modifica suas formas de atuação.
Zélia falava desse processo como pesquisadora e como parte dele. Sua produção intelectual nasceu de uma vida dedicada à organização política, à arte, à educação e à construção das ações afirmativas.
O movimento negro como herdeiro de Ananse
Na tradição dos povos fanti-ashanti, Ananse é a divindade que assume a forma de aranha e conquista, por meio de sua inteligência e de suas teias, o direito de guardar e transmitir todas as histórias do mundo.
Essa narrativa tornou-se um dos principais elementos do pensamento de Zélia Amador de Deus. Em sua tese de doutorado, Os herdeiros de Ananse: movimento negro, ações afirmativas, cotas para negros na universidade, defendida em 2008, ela utilizou a teia como metáfora das ações de resistência construídas pela população negra na diáspora.
Cada organização, manifestação, pesquisa, articulação política e saber ancestral representa um fio. Juntos, esses fios formaram uma teia capaz de inserir o reconhecimento do racismo, da discriminação racial e das ações afirmativas na agenda do Estado brasileiro.
O racismo aparece em sua produção como um sistema que se adapta ao tempo e aos espaços, assumindo diferentes máscaras para preservar desigualdades. Diante dele, a resistência negra também produz novas estratégias, recupera memórias e fortalece vínculos coletivos.
Uma voz negra da Amazônia para o Brasil
Nascida no Pará, Zélia Amador de Deus fez da realidade da população negra amazônica parte central de sua atuação política e intelectual.
Sua trajetória contribuiu para enfrentar a invisibilidade histórica das experiências negras da Região Norte e para afirmar a Amazônia como um território de produção de conhecimentos, culturas e formas de organização social.
Ao longo da vida, defendeu que a região não fosse tratada como margem do debate racial brasileiro. Para ela, a Amazônia negra também era protagonista das lutas construídas pela população negra no país.
Essa atuação alcançou espaços nacionais e internacionais. Em 2001, Zélia integrou a representação brasileira na III Conferência Mundial contra o Racismo, realizada em Durban, na África do Sul. A conferência tornou-se um marco para as discussões que impulsionaram a adoção de políticas de ação afirmativa no Brasil.
A construção do CEDENPA
Zélia não apenas estudou as teias da resistência negra. Ela ajudou a tecê-las.
Em 1980, esteve entre as pessoas que fundaram o Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará, o CEDENPA. A organização tornou-se uma das principais referências do movimento negro na Amazônia, com atuação em defesa dos direitos da população negra e das comunidades quilombolas.
O trabalho desenvolvido pelo CEDENPA integra um processo histórico de mobilização que questionou o discurso da democracia racial e pressionou o poder público a reconhecer a existência do racismo e das desigualdades raciais no Brasil.
Por meio da organização coletiva, demandas antes invisibilizadas conquistaram espaço no debate público e na formulação de políticas.
Um dos fios chegou à universidade
A Universidade Federal do Pará, a UFPA, ocupou um lugar central na trajetória de Zélia Amador de Deus. Ela ingressou na instituição como estudante de Letras, em 1971, concluiu a graduação em 1974 e tornou-se professora em 1978.
Na universidade, participou da construção da política de cotas raciais e da criação de espaços voltados à produção de conhecimento sobre as populações negras, como o Grupo de Estudos Afro-Amazônicos.
Entre 1993 e 1997, ocupou o cargo de vice-reitora da UFPA. Durante esse período, assumiu interinamente a Reitoria e tornou-se a primeira mulher negra a exercer a função de reitora de uma universidade federal brasileira.
Sua presença naquele espaço representou um marco, mas seu legado não se restringiu ao cargo ocupado. Sua atuação ajudou a transformar quem poderia entrar na universidade, ampliou o debate sobre o direito à permanência e contribuiu para que outros conhecimentos e sujeitos fossem reconhecidos pela instituição.
Em 2020, recebeu o título de Professora Emérita da UFPA, tornando-se a primeira mulher negra a receber essa distinção na história da universidade.
Arte, corpo e ação política
Atriz, diretora e professora de teatro, Zélia também investigou o corpo negro como portador de memória, identidade e ação política.
Em sua trajetória, a arte não esteve separada da luta antirracista. O palco, a sala de aula, a produção acadêmica e a militância eram diferentes espaços de uma mesma construção.
Seus estudos mostraram como o racismo atribuiu significados negativos ao corpo negro ao longo da história. Ao mesmo tempo, reconheceram nesse corpo a capacidade de preservar memórias, produzir outras narrativas e transformar a presença em resistência.
A produção artística e intelectual tornava-se, assim, mais um fio das teias construídas pela população negra na diáspora.
Um legado construído coletivamente
Conhecer o pensamento de Zélia Amador de Deus também é uma forma de compreender como muitas das conquistas atuais foram coletivamente tecidas.
As políticas de ações afirmativas, a ampliação da presença negra nas universidades, o fortalecimento das organizações do movimento negro e o reconhecimento das experiências negras amazônicas resultam de muitos fios, pessoas e gerações.
Uma teia não termina quando um de seus fios se rompe. Ela permanece nas organizações construídas, nas políticas conquistadas, no conhecimento produzido e nas pessoas que continuam a luta.
Zélia Amador de Deus tornou-se ancestral. A teia que ajudou a construir permanece viva.
O Instituto DACOR presta solidariedade à família de Zélia e às organizações e aos coletivos para os quais ela contribuiu de maneira tão significativa ao longo da vida.
