As informações vêm do Índice de Justiça Econômica Racial (IJER), construído a partir de microdados da PNAD Contínua entre 2016 e 2023.
Desenvolvido pelo Fundo Agbara, Fundação Volkswagen e ActionAid, o índice une raça e gênero para analisar de forma integrada quatro pilares fundamentais: acesso à moradia, escolaridade, trabalho e renda, expondo como a nossa sociedade continua parada no mesmo lugar.
Entre 2016 e 2023, o Brasil melhorou a distribuição de renda, mas a distância entre os extremos não se moveu. O teto do homem negro ainda é inferior ao da mulher branca.
Renda domiciliar por pessoa na família em 2023:

O Tempo Parou?
Se olharmos para a média real de todo o período analisado entre 2016 e 2023, a proporção histórica de desigualdade ficou congelada.
Em 2016, a média era de R$ 862,98 para mulheres negras contra R$ 1.821,55 para homens brancos. Em 2023, passou para R$ 1.191,66 para mulheres negras contra R$ 2.381,43 para homens brancos.
Apesar de a renda média ter subido para todos, a distância continuou exatamente a mesma: metade. O avanço econômico geral não reduziu a desigualdade estrutural.
Uma pessoa pode levar até 9 gerações para sair da pobreza no Brasil.
Isso mostra que a desigualdade não é uma fase passageira ou um desvio do sistema: ela faz parte da forma como a nossa estrutura econômica foi construída e continua funcionando.

Atribuir a baixa remuneração e a informalidade das mulheres negras a “escolhas individuais” ignora a realidade. O mercado precariza sistematicamente as funções de cuidado e a força de trabalho negra para baratear os custos do topo.
A Desigualdade além do bolso
No Brasil, 31,6% das mulheres negras dependem de fossas sépticas sem rede de esgoto, enquanto entre as mulheres brancas esse número cai para 20,7%.
A falta de saneamento básico e a sobrecarga invisível do trabalho doméstico drenam o tempo. Sem tempo, ninguém consegue mudar de vida ou crescer financeiramente.
Estamos falando de um modelo desenhado para manter privilégios geográficos e raciais intactos. Os dados mostram que políticas e ações universais, sem olhar para as diferenças, não resolvem o problema. Na prática, elas deixam tudo como sempre esteve.
