Professores negros: o que os dados revelam sobre a desigualdade racial na docência

Pesquisas brasileiras mostram por que ampliar a presença negra na educação exige examinar os processos de contratação e as práticas dentro das instituições.

Quem precisa explicar a desigualdade racial na docência? Essa cobrança também precisa chegar às instituições que selecionam e contratam professores.

Garantir condições para que pessoas negras ingressem e permaneçam na graduação e na pós-graduação é indispensável. Mas concentrar toda a discussão na formação deixa outras perguntas sem resposta: como as oportunidades são distribuídas? Quem define os critérios de seleção? Quais práticas favorecem a permanência dos mesmos grupos nesses espaços?

Na publicação pelo Dia do Professor, celebrado em 15 de outubro, o Instituto DACOR reuniu dados e pesquisas que ajudam a discutir essas responsabilidades. Os resultados abordam tanto as barreiras à contratação de profissionais negros quanto os efeitos da composição racial do corpo docente na educação dos estudantes.

A maioria da população não se reflete na docência

Pessoas pretas e pardas representam 55,5% da população brasileira, segundo o Censo 2022 do IBGE. Essa proporção, porém, não se repete entre os professores.

Nos dados do Censo Escolar 2025, considerando apenas docentes com raça/cor informada, professores negros representavam:

  • 45,2% no Ensino Fundamental;
  • 40,1% no Ensino Médio.

Esses percentuais foram calculados somando docentes pretos e pardos e dividindo o resultado pelo total de professores com informação de raça/cor, a partir dos dados do Inep, disponíveis nos painéis do Censo Escolar.

No Ensino Superior, a participação era ainda menor: aproximadamente 26,8% entre docentes com raça/cor declarada, em 2024, conforme cálculo a partir da distribuição apresentada no Resumo Técnico do Censo da Educação Superior.

Esses levantamentos retratam grupos distintos e não acompanham a passagem dos mesmos profissionais entre etapas de ensino. Ainda assim, mostram a sub-representação negra e reforçam a necessidade de investigar os caminhos de acesso à profissão.

Quando a organização do concurso restringe as cotas

Uma parte dessa discussão passa pela maneira como as universidades abrem suas vagas.

As pesquisadoras Kercia Lidia Vasconcellos Mota e Sabrina Daiana Cúnico analisaram 2.419 editais de concursos docentes, publicados entre 2014 e 2024 por 16 universidades federais de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo.

No conjunto analisado, cerca de 5% das vagas foram reservadas para pessoas negras. As autoras identificaram que a fragmentação de concursos em editais com poucas vagas restringia a aplicação das cotas pelas regras daquele período. Os resultados estão no artigo “A Lei de Cotas em concursos para Magistério Federal: facetas do racismo institucional persistente”.

O achado mostra por que decisões administrativas precisam entrar no debate racial. A forma de distribuir vagas entre editais pode comprometer o alcance de uma política criada para enfrentar a desigualdade.

Por isso, avaliar o compromisso de uma instituição exige acompanhar como suas decisões afetam o acesso de candidatos negros às oportunidades.

Quem escolhe os critérios também precisa ser questionado

A reserva de vagas é fundamental, mas as etapas de avaliação também precisam ser examinadas.

O artigo “Se não é igual a gente, não vai entrar”: branquitude e cotas em concursos para o magistério federal, publicado na revista Sociedade e Estado, ouviu cinco servidores técnico-administrativos que haviam assessorado concursos em uma universidade federal.

Os relatos apontaram redes de influência na definição dos temas das provas e na composição das bancas, favorecendo a manutenção de privilégios brancos. Embora a pesquisa tenha ouvido profissionais de uma instituição, suas conclusões levantam questões sobre a gestão dos concursos e a necessidade de examinar suas práticas.

Quando o debate se limita ao que falta na formação de profissionais negros, deixa de perguntar quais vantagens já operam em favor de outros candidatos. Tornar os critérios públicos e examinar como são aplicados faz parte da responsabilidade de quem contrata.

A desigualdade também aparece na avaliação dos estudantes

As pesquisas reunidas pelo DACOR mostram que a discussão sobre quem ocupa a docência também alcança o cotidiano das salas de aula.

Um estudo desenvolvido por Júlia Batista na Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP analisou avaliações de matemática do terceiro ano do Ensino Médio da rede estadual de Minas Gerais.

Segundo a reportagem do Jornal da USP, a pesquisa identificou uma diferença de 10,9% nas notas, atribuída a viés racial, desfavorável a estudantes pretos em comparação com colegas brancos de desempenho semelhante. A análise considerou fatores como condição socioeconômica e desempenho anterior.

O viés foi identificado nas avaliações de professores brancos. Nas escolas com professores brancos e negros de matemática, ele deixou de ser estatisticamente significativo. Jornal da USP

Os resultados reforçam a importância de examinar conjuntamente a composição racial do corpo docente e os critérios usados para avaliar a aprendizagem. Também colocam uma responsabilidade para as instituições: reconhecer e enfrentar práticas que podem produzir tratamento desigual.

A presença de professores negros e as oportunidades futuras

Outra pesquisa brasileira investigou efeitos que vão além do desempenho imediato na escola.

No estudo The Short- and Long-Run Impacts of Black Teachers: Evidence from Brazil, divulgado em 2025, o economista Pedro Lopes analisou como o contato com professores negros se relaciona com resultados educacionais e com a trajetória posterior dos estudantes. O trabalho também foi apresentado em uma publicação do Porvir. 

A pesquisa encontrou efeitos positivos sobre a conclusão do Ensino Médio e o acesso ao Ensino Superior entre estudantes negros. Em uma simulação, estimou que elevar de zero para 50% a proporção de professores negros poderia reduzir em cerca de 60% a diferença de rendimentos entre ex-estudantes negros e brancos, no recorte analisado.

Esse número é uma projeção da pesquisa, não uma redução já observada em todo o Brasil. Ele indica o potencial de ampliar a presença negra na docência e suas consequências para a distribuição de oportunidades.

O compromisso antirracista precisa aparecer nas decisões

Os estudos abordam contextos e métodos diferentes. Juntos, ajudam a formular uma cobrança: o que escolas, universidades e redes de ensino estão mudando para enfrentar a desigualdade racial?

Essa resposta precisa incluir o acompanhamento das contratações, a aplicação das cotas, a atuação das bancas e a revisão das práticas de avaliação. Também exige a participação de professores negros nas decisões institucionais.

O direito desses profissionais a ensinar, produzir conhecimento e construir os rumos da educação precisa orientar mudanças concretas. A responsabilidade por transformar as instituições também é de quem já ocupa seus espaços de poder.