por Helton Souto e Vidal Dias da Mota Junior
No dia 5 de agosto, o Ministério da Educação divulgou os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) referentes a 2025. Os primeiros destaques da imprensa seguiram uma abordagem que tem sido comum: rankings e comparações entre redes e escolas municipais, estaduais e federais, com um olhar sobre o que avançou e onde existem estagnações e retrocessos. Os resultados de 2025 trazem, de maneira geral, uma boa notícia que é o avanço em todas as etapas da educação básica. Porém, o que praticamente não aparece nesse primeiro olhar é quem são os estudantes mais distantes da aprendizagem ideal e por que estão nessa condição. Sem o devido recorte de raça e cor, o Ideb continua contando parte da história da desigualdade educacional brasileira.
Não é possível negar que o Ideb é um instrumento importante para localizar desafios de aprendizagem e fluxo. Quando bem utilizado, pode apoiar as redes a qualificar suas políticas educacionais. Porém, na forma como costuma ser divulgado e, principalmente, devido a como as decisões são tomadas a partir de seus resultados, existe o risco real de estudantes serem entendidos como categoria abstrata e sem cor ou raça. Essa neutralidade aparente esconde um país historicamente estruturado pelo racismo, no qual o acesso à educação de qualidade nunca foi distribuído de forma justa entre estudantes pretos, pardos, indígenas e brancos.
O Brasil tem produzido evidências que demonstram essa realidade. Ao cruzar informações do Censo Escolar, do Saeb e de outras fontes oficiais, o Mapa de Dados, do Instituto DACOR, traz um conjunto de dados que revelam o impacto do racismo sobre estudantes adolescentes negros dentro e fora da escola. Com foco nos Anos Finais do Ensino Fundamental – etapa que concentra mais da metade dos estudantes negros da rede pública -, o mapa reuniu uma série histórica de dez anos, analisando dados de 2,8 milhões de estudantes em 5.570 municípios brasileiros.
Na mesma direção, o Instituto GUETTO desenvolveu o Mapa Preto da Educação, iniciativa que analisa a situação educacional da população negra a partir de dados do Saeb entre 2013 e 2021, considerando variáveis como gênero, segmento de ensino e tipo de escola. O documento também expõe as fragilidades do próprio sistema de coleta: uma parcela relevante dos estudantes não declara sua raça ou cor, os dados de autodeclaração sofrem inconsistências, sobretudo entre crianças mais novas, e escolas pequenas ficam fora das avaliações, muitas delas em territórios indígenas e quilombolas.
É interessante que essas duas iniciativas têm o nome de “mapa”. Elas buscam localizar quem são, onde estão, qual é o gênero e a cor de estudantes que estão crescendo com suas redes de ensino e aqueles que não estão atingindo esse mesmo patamar. Esse é um tipo de investigação importante ainda mais quando dialoga com levantamento do Núcleo Afro-Cebrap, que em parceria com o Geledés Instituto da Mulher Negra e o Instituto Alana usou microdados do Saeb 2023 para mostrar que mais da metade dos estudantes do 9º ano e do 3º ano do ensino médio não reconhece a existência de um debate sobre desigualdades raciais em suas escolas.
Essas iniciativas e evidências são necessárias para que políticas educacionais não estejam baseadas apenas em médias nacionais. Um Ideb satisfatório pode conviver, dentro da mesma escola, com abismos de aprendizagem entre estudantes brancos e negros, algo que o número agregado simplesmente apaga. Isso nos faz defender que não há como monitorar essas políticas e nem trabalhar orientado à redução das desigualdades sem produção sistemática de dados com recorte racial e sem que raça, cor e gênero sejam tratados como elementos estruturantes das políticas públicas de educação.
Importante destacar que há esforço sendo construído por instituições e pessoas especialistas para que haja uma atualização do Ideb de modo que ele possa ser mais assertivo na verificação das desigualdades. Em nossa avaliação, é importante articular a essa discussão as visões de organizações e pessoas especialistas dos povos preto, quilombolas e indígenas. Apenas desse modo, vozes, saberes, percepções e capacidades de propor soluções para esse problema poderão ser amplificadas e não invisibilizadas.
Racializar o Ideb significa reconhecer que o índice, hoje, mede o desempenho médio de escolas compostas majoritariamente por crianças negras sem considerar se os resultados de aprendizagem estão relacionados à qualidade das políticas educacionais, aos efeitos do racismo institucional e sistêmico ou à combinação de ambos. Significa melhorar a capacidade de avaliar, qualificar a coleta e tratamento de dados raciais, identificar desigualdades e tomar decisões sobre como direcionar recursos, formar docentes e estruturar currículos em escolas e territórios desigualdades educacionais podem estar se perpetuando.
Considerando essa perspectiva, será importante, a partir dos resultados divulgados em 05 de agosto, acompanhar como serão tratados no debate público as questões raciais. Dessa forma, será possível capturar o quanto as análises estão levando em conta a vida escolar daqueles e daquelas que fazem parte da maioria da população.
Sobre o Instituto DACOR
Criado em 2020, o Instituto DACOR é uma organização da sociedade civil que nasceu da vontade de ser um propulsor de ações para combater o racismo no país. Atua por meio da reunião, integração e disseminação de dados e conhecimentos em projetos para fomentar políticas públicas e privadas de combate ao racismo e equidade racial. Participamos dos coletivos:
Educação JÁ Nacional – Todos Pela Educação;
Coalizão PNE Antirracista;
Coalizão Equidade para Aprender e;
Coalizão Negra por Direitos.
