Uma análise racializada sobre o RADAR IDHM 2012-2024 para pensarmos desenvolvimento humano no Brasil

O Brasil chegou a 2024 com um IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal) de 0,805, atingindo pela primeira vez na história o patamar de “muito alto desenvolvimento humano”. Essa conquista representa o resultado de 12 anos , com dados desde 2012, quando o IDHM era de 0,765. À primeira vista, parece uma história de sucesso nacional. No entanto, essa narrativa de evolução mascara uma realidade profundamente desigual. 

Os avanços foram distribuídos de forma desigual entre regiões, raças e gêneros. Isto é, considera-se que, ao analisar os dados desagregados, determinados grupos populacionais apresentam resultados inferiores aos indicadores do IDHM, evidenciando situações de desigualdades estruturais e desvantagem social em comparação à média observada. 

O Brasil não é um país com um único IDHM, mas múltiplos Brasis com realidades distintas determinadas pela interseccionalidade de raça, gênero e território. Enquanto alguns grupos experimentaram desenvolvimento significativo, outros permaneceram estagnados ou até retrocederam.

Este texto analisa os dados do Radar IDHM 2012-2024 com foco especial nas desigualdades raciais e de gênero, revelando como essas dimensões se entrelaçam para criar hierarquias de privilégio e vulnerabilidade que perpetuam a exclusão social no Brasil.

O Hiato Racial: onde é necessário avançar

O IDHM da população negra cresceu mais rápido (10,3%) que o da população branca (5,5%) entre 2012 e 2024. Isso significa que o hiato racial (distância entre a população negra e a população branca no IDHM) teve uma redução de 30%.

Isto é, sem dúvidas, positivo e representa avanços. Mas é insuficiente diante da magnitude da desigualdade racial e estrutural, que é histórica, mas também contemporânea. Mesmo com crescimento mais rápido, a população negra permanece significativamente atrás da branca em desenvolvimento humano em todas as dimensões avaliadas pelo estudo: renda, educação e longevidade.

O maior abismo entre brancos e negros permanece na dimensão renda. A população negra ganha apenas 55,7% do que a branca ganha. Em números absolutos:

  • População branca: R$ 1.208,58 per capita
  • População negra: R$ 673,65 per capita
  • Diferença: R$ 534,93 por mês

Essa diferença de R$ 534,93 por mês representa uma das formas de concretização do racismo estrutural e sistêmico. Para uma família negra, essa é a diferença entre poder pagar aluguel, entre poder comprar alimentos ou não, entre poder investir em educação ou não, entre conseguir acessar cultura e lazer ou não.

Desigualdades territoriais e raciais 

A desigualdade racial está, de alguma forma, presente em todos os territórios, em menor ou maior grau. Os dados do IDHM mostram, contudo, que essa distribuição não afeta todos os territórios uniformemente: as regiões que possuem baixo IDHM também concentram mais população negra.

Os números são alarmantes:

  • 10 estados oferecem muito alto desenvolvimento em renda para a população branca. Estão nessa classificação todos os estados do Sul do Brasil (SC, RS e PR) e do  Sudeste (SP, RJ, MG e ES), além de três estados do Centro-Oeste (DF, GO e MS). Não há estados do Nordeste e do Norte neste patamar.
  • Nenhum estado oferece muito alto desenvolvimento em renda para a população negra.
  • 13 estados restringem a população negra ao médio desenvolvimento, sendo que em nenhum estado a população branca fica nessa categoria. Os estados em que as pessoas negras ficam nessa posição ficam no Nordeste (MA, PI, CE, RN, PB, PE, AL, SE, BA) e Norte (AM, PA, AM, RO)

Um exemplo extremo para simbolizar essa distância acontece quando comparamos o Distrito Federal (melhor para brancos) com renda de R$ 2.100/mês com o Maranhão (pior para negros), com renda per capita para R$ 1.241/mês. Uma diferença de R$ 858,92/mês que escancara que essa segregação territorial não é acidental. 

Esse cenário é resultado de séculos de políticas de exclusão que criaram uma “armadilha de baixo dinamismo”, fenômeno que refere-se a uma região ou população que apresenta baixa capacidade de crescimento econômico, social e humano. É um estado de estagnação onde as oportunidades são limitadas, os investimentos são escassos, e as condições de vida permanecem precárias ao longo do tempo. Diferente de uma região em crise temporária, o baixo dinamismo é estrutural e persistente, criando ciclos de pobreza que se perpetuam de geração em geração. Assim, ser negro em um estado pobre significa estar duplamente excluído: pela cor da pele e pelo local de nascimento.

Educação: avanços e desafios

A educação foi a dimensão em que  o Brasil fez o maior avanço na redução de desigualdades raciais em relação ao IDHM. Entre 2012 e 2024, a desigualdade racial em educação foi reduzida em 45,6%, a maior redução entre todas as dimensões. Os números mostram que o IDHM da população negra cresceu 23,6% em educação, enquanto a branca cresceu 12,0%. 

Outro dado que vale observar é que em 2012, havia uma diferença de 13,36 pontos percentuais entre brancos e negros com ensino fundamental completo. Em 2024, essa diferença caiu para 9,30 pontos: Brancos são 80% enquanto Negros, 71%. A população negra avançou 27% enquanto a branca avançou 15,4%.

As políticas públicas universalistas direcionadas à educação básica neste século têm demonstrado sua importância para a redução das desigualdades educacionais e, consequentemente, contribuído para a diminuição das desigualdades raciais na educação. Entretanto, tais políticas ainda apresentam limitações no que se refere à redução e à eliminação das desigualdades raciais. Para o Líder de Educação do Instituto DACOR, Natanael Rocha:

É necessário associar às políticas universalistas ações e políticas de natureza afirmativa, com objetivos definidos e intencionalidade explícita, voltadas ao enfrentamento das desigualdades raciais. Isso implica, diretamente, a definição e a destinação de recursos públicos específicos para promover a redução e a superação dessas desigualdades.

IDHM Renda: o maior abismo para a população negra

Os dados do IDHM Renda revelam que as desigualdades raciais e de gênero seguem estruturando o mercado de trabalho brasileiro. Enquanto os homens brancos apresentam um IDHM de renda de 0,822, considerado muito alto, e uma renda per capita mensal em torno de R$ 2.800, mulheres brancas e homens negros registram rendimentos semelhantes, cerca de R$ 1.900 e R$ 1.850 por mês, respectivamente, o que representa perdas de 32% e 34% em relação aos homens brancos. 

A situação mais crítica é a das mulheres negras, que acumulam os efeitos do racismo e do sexismo: com IDHM de renda de 0,62, na faixa de médio desenvolvimento, sua renda per capita é de aproximadamente R$1.200 mensais.

tabela que mostra o IDHM Renda de cada grupo

Há um ponto importante também no que se relaciona à intersecção entre gênero e raça. A educação das mulheres negras tem avançado de forma importante: entre todos os grupos, elas foram as que mais evoluíram percentualmente no IDHM Educação, com 13,2% de crescimento entre 2012 e 2024. No entanto, seguem na base da rede per capita do IDHM. No que se refere à renda, recebem 35% menos que homens negros, 37% a menos que mulheres brancas e 57% menos que homens brancos. Ou seja, elas são afetadas tanto pela discriminação racial (porque são negras) quanto pela discriminação de gênero (porque são mulheres), que juntas criam uma barreira que a educação sozinha não consegue transpor.
“Isso mostra que as políticas públicas com foco em raça são, sim, fundamentais. No entanto, precisam estar articuladas de forma sistêmica e integrada em todas as dimensões estruturais da sociedade, incluindo educação, distribuição de renda, moradia, saúde e inserção profissional”, afirma Natanael.

Interseccionalidade: quando Raça e Gênero se cruzam

A análise interseccional de raça e gênero (abordagem que analisa como diferentes marcadores sociais, como raça e gênero, se combinam para produzir experiências distintas de privilégio ou desigualdade) revela uma hierarquia evidente de desenvolvimento humano no Brasil: brancos com IDHM mais alto e negros com mais baixos.

Ranking de IDHM Geral:

  • Homem Branco: 0,86 (Muito Alto)
  • Mulher Branca: 0,83 (Muito Alto)
  • Homem Negro: 0,77 (Alto)
  • Mulher Negra: 0,74 (Alto)

A diferença entre o primeiro e o quarto lugar é de 0,12 pontos, que coloca pessoas negras no patamar de desenvolvimento alto e pessoas brancas no muito alto.

Saúde e Longevidade: O Racismo Mata

A esperança de vida ao nascer varia significativamente por raça e gênero, mantendo a Mulher Branca com maior esperança, com 81,5 anos e o Homem Negro na base, com 74,8 anos.

O homem negro vive 6,7 anos menos que mulher branca. E é fundamental registrar que essa diferença de longevidade não é biológica. Ainda que mulheres naturalmente vivam mais que homens em todas as populações, a diferença entre homem negro e mulher branca é maior que a diferença biológica normal. Isso aponta para impactos específicos do racismo sobre a saúde e segurança de homens negros.

A menor longevidade de homens negros é resultado de múltiplos fatores, como violência (Homens negros são vítimas de homicídio de forma desproporcionalmente maior), acesso à saúde, pobreza, estresse e Comportamentos de risco (alguns comportamentos de risco estão associados a contextos de exclusão social).  Essas causas não são naturais ou inevitáveis. São resultado de políticas e estruturas sociais que podem ser mudadas.

Educação mostra que é possível, mas que sozinha não dá conta das desigualdades raciais

Apesar dos desafios, o Brasil fez avanços significativos no IDHM Educação. A desigualdade racial em educação foi reduzida em 45,6% entre 2012 e 2024. Essa é a maior redução entre todas as dimensões do IDHM.

O IDHM da  população negra cresceu 23,6% em educação, enquanto o da branca cresceu 12,0% em educação. Com isso, o hiato racial em educação foi reduzido de 0,15 para 0,08 pontos.

A partir da leitura, pode-se inferir que a dimensão da educação foi a que mais contribuiu para a redução das desigualdades no Brasil e um fator que pode ter contribuído foi a combinação de investimentos públicos e políticas de inclusão ao longo das últimas décadas. A ampliação do acesso à educação pública, especialmente em regiões historicamente mais vulneráveis, somada a iniciativas como cotas universitárias e programas de bolsas, permitiu que mais pessoas negras acessassem espaços educacionais antes restritos. Além disso, houve um aumento da demanda por educação entre a população negra, que parece impulsionado pela compreensão da educação como ferramenta de mobilidade social. Esse movimento também gerou efeitos de rede: à medida que mais pessoas negras ingressam e permanecem em espaços educacionais, fortalecem-se referências, redes de apoio e oportunidades para as próximas gerações.

No entanto, é importante reconhecer que políticas universalistas, embora essenciais para ampliar direitos e oportunidades, não são suficientes, por si só, para enfrentar e superar as desigualdades raciais historicamente construídas no Brasil. Por isso, elas precisam estar articuladas a políticas afirmativas capazes de responder às barreiras específicas que afetam a população negra. Se, nas últimas décadas, houve maior intencionalidade e investimento em ações de promoção da equidade racial no ensino superior, é fundamental que esse mesmo compromisso se fortaleça também na educação básica, por meio de iniciativas mais estruturadas, contínuas e abrangentes, por exemplo.

Caminhos Possíveis e como o Instituto DACOR entra na conversa

Os dados do Radar IDHM 2012-2024 revelam um Brasil que avançou em termos médios, mas também mostram que o avanço do desenvolvimento humano no Brasil ainda acontece de forma desigual. Embora o país tenha alcançado indicadores históricos, raça, gênero e território continuam determinando quem tem acesso a oportunidades, renda, saúde e qualidade de vida. Diante disso, enfrentar essas desigualdades exige políticas públicas capazes de olhar para as diferentes realidades do país e reconhecer que grupos distintos vivenciam barreiras distintas, colocando intencionalidade e recursos em políticas afirmativas com foco em raça.

Vale também reforçar que o aprimoramento, o refinamento e a ampliação da produção de dados desagregados por cor/raça são igualmente fundamentais para que possamos compreender, de forma cada vez mais precisa e fidedigna, a realidade brasileira.
A educação segue sendo um dos principais caminhos para a transformação social, especialmente em regiões marcadas pela segregação territorial e pela concentração da população negra em indicadores mais baixos de desenvolvimento. Mais do que ampliar o acesso, o desafio está em garantir qualidade, permanência e conexão entre educação e oportunidades concretas de mobilidade social. Em outros termos, entendemos que a ampliação das oportunidades educacionais para o enfrentamento das desigualdades históricas e contemporâneas associadas aos marcadores de raça e gênero demanda a articulação entre políticas públicas universalistas e políticas públicas de natureza afirmativa. 

Essa compreensão decorre do reconhecimento de que, diante de um cenário de desigualdades raciais e de gênero historicamente constituídas e ainda presentes na contemporaneidade, seu enfrentamento exige ações coordenadas, intencionais e estruturadas, não podendo se restringir a iniciativas pontuais ou desarticuladas. 

“Também é fundamental fortalecer continuamente a produção, a qualificação e a análise de dados, além de aprimorar indicadores como o IDHM e outros índices desagregados por raça/cor, gênero e território. Essas ferramentas são essenciais para orientar a formulação de políticas públicas mais eficazes, bem como para monitorar, avaliar e aperfeiçoar ações voltadas à promoção da equidade e à redução das desigualdades”, destaca Natanael Rocha.

Ao mesmo tempo, os dados mostram que educação sozinha não resolve desigualdades históricas. A discriminação racial e de gênero ainda impacta diretamente o acesso ao mercado de trabalho, os salários, os espaços de liderança e as possibilidades de ascensão profissional. Isso evidencia a necessidade de políticas que promovam inclusão, equidade e combate às diferentes formas de discriminação presentes nas relações de trabalho.

As desigualdades também se manifestam de maneira específica entre diferentes grupos. Mulheres negras, por exemplo, enfrentam sobreposições de desigualdade que afetam renda, ocupação e acesso a direitos. Já homens negros seguem sendo os mais impactados por violência e menor expectativa de vida. Isso reforça a importância de políticas públicas que considerem as vulnerabilidades específicas produzidas pelo racismo estrutural e pelas desigualdades de gênero. Mulheres superam homens em educação e longevidade, mas ganham menos. Raça e gênero se multiplicam para criar vulnerabilidades que nenhuma política isolada consegue resolver.

Outro ponto central é a produção e o monitoramento contínuo de dados. Acompanhar indicadores desagregados por raça/cor, gênero e território permite compreender melhor os desafios do país, avaliar avanços e retrocessos, e orientar políticas públicas mais efetivas e transparentes. Quanto maior a qualidade e a disponibilidade desses dados, maiores são as condições de identificar desigualdades, monitorar sua evolução e subsidiar a formulação, a implementação e a avaliação de políticas públicas universalistas e afirmativas voltadas à redução das desigualdades raciais. Em outras palavras, a produção qualificada de dados também constitui uma ferramenta estratégica para a promoção da equidade racial.

Nesse sentido, a atuação do Instituto DACOR ocorre justamente na defesa para que as políticas públicas no Brasil tenham raça em sua centralidade. Para o presidente do Instituto DACOR, Helton Souto, “isso significa que as decisões precisam ser tomadas de maneira intencional para diminuir ou acabar com o abismo entre as populações negra e branca no que diz respeito ao desenvolvimento humano. Dados e evidências são ferramentas fundamentais para isso, assim como a disseminação de conhecimentos sobre essas desigualdades”.

Mais do que resultado automático do crescimento econômico, a redução das desigualdades depende de escolhas políticas, investimento público e compromisso contínuo com justiça social e racial. O desenvolvimento humano só se torna pleno quando alcança a população de forma ampla e equitativa.

O Brasil pode escolher a equidade. Mas essa escolha requer mobilização, dados, e compromisso com justiça racial e de gênero. Requer que organizações como o Instituto DACOR e muitas outras de combate ao racismo continuem a produzir dados, educar a sociedade e exigir que políticas públicas funcionem para todos e todas.