Nascidos da busca por liberdade, os quilombos são territórios que preservam culturas, saberes e religiões de matriz africana que resistiram ao tempo e às tentativas de apagamento. Nesta edição do especial “Quilombos do Brasil”, exploramos como a espiritualidade se transforma em resistência: da batida dos tambores no Maranhão ao chão sagrado dos terreiros na Bahia, é a religiosidade que mantém a união de muitas dessas comunidades.
Dados do Censo 2022 mostram que o Brasil abriga mais de 1,3 milhão de quilombolas. Esses números revelam territórios vivos, onde o sagrado orienta desde o plantio e a colheita até o modo de vida coletivo. Nesse contexto, cada ponto cantado e cada ritual realizado funciona como um ato de preservação de uma memória que atravessou o oceano. Afinal, entender o Brasil exige reconhecer que a força desses quilombos nasce, acima de tudo, do respeito à ancestralidade.
Ilê Axé Opô Afonjá – São Gonçalo do Retiro (BA)

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Fundado no início do século XX por Mãe Aninha, o espaço nasceu como um território de preservação da cultura africana no período pós-abolição. Considerado um dos principais centros do Candomblé da nação Ketu, o local funciona como uma comunidade que vai além dos limites do terreiro. Até hoje, essa espiritualidade estrutura a vida local: os rituais, o tempo e os saberes são guiados pela relação com os orixás e pela transmissão da memória ancestral.
Santa Rosa dos Pretos – Itapecuru-Mirim (MA)

Reprodução: Prefetiura de Itapecurumim
Formada por descendentes de pessoas escravizadas que mantiveram o domínio da terra ao longo dos séculos, a comunidade é profundamente ligada ao Tambor de Crioula e ao Terecô. Nesses ritos, a fé se manifesta na continuidade de rezas e festas que unem heranças africanas ao catolicismo popular. A relação com os “encantados” (entidades espirituais) orienta desde a agricultura até o uso dos recursos naturais, transformando as celebrações de tambor em atos de afirmação política e coletiva.
Slide 4 – Itamatatiua – Alcântara (MA)

“Quilombo Itamatatiua – Alcântara – 20250828094115” by Túllio F is licensed under CC BY-SA 4.0.
Originado por populações negras que permaneceram na região após o fim da escravidão, o quilombo de Itamatatiua se organiza em torno do trabalho coletivo. Um exemplo disso é o artesanato em cerâmica, saber tradicional transmitido entre gerações de mulheres. Nesse território, a espiritualidade é marcada pela união de crenças: a devoção a Santa Teresa d’Ávila convive com as raízes africanas, onde o toque dos tambores e os rituais ancestrais ganham espaço dentro das festas cristãs. Essa mistura mostra uma fé que se mantém viva tanto no altar quanto no fazer cotidiano da comunidade.
Slide 5 – Quilombo da Serrinha – Rio de Janeiro (RJ)

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A Serrinha consolidou-se no início do século XX, quando famílias negras ocuparam a região e criaram redes de apoio e resistência cultural no contexto urbano. A identidade do local se expressa fortemente através do Jongo, prática que preserva a memória ancestral e a reverência aos mais velhos. Hoje em dia, o território permanece como um símbolo de como tradição e fé caminham juntas para garantir a continuidade dessa herança.
Slide 6: Quilombo Jauari (Oriximiná, PA)

Reprodução: CPISP
Símbolo de resistência no Norte, o Quilombo Jauari foi fundado no século XIX sob a proteção de São Benedito. Essa devoção une a herança africana às tradições católicas, manifestada no Aiuê, uma festa onde orações em latim são cantadas durante o levantamento do mastro da fartura. Para a comunidade, celebrar o padroeiro é agradecer pela terra e reafirmar que a fé foi o guia que conduziu seus antepassados à liberdade.
