A trágica morte do psicólogo e ativista Manoel Rocha Reis Neto, ocorrido dias após ele denunciar um episódio de racismo sofrido durante o Carnaval no Camarote Ondina, em Salvador, trouxe à tona uma realidade que não pode mais ser silenciada: o impacto devastador do racismo na saúde mental da população negra. Parafraseou em seu Instagram “a felicidade do branco é plena, a felicidade do negro é quase”. Manoel cometeu suicídio horas depois de sua publicação.
Com uma trajetória marcada pelo engajamento na causa antirracista, especialmente no que se relaciona à saúde mental, Manoel era mestrando da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e natural da cidade de Amargosa, no Recôncavo Bahiano. Ele utilizava sua voz nas redes para denunciar justamente a opressão racial e criar novos modos de existir para pessoas negras sob a perspectiva da psicologia.
O caso de Manoel não é isolado. Ele se soma a uma estatística alarmante que, segundo o psicólogo Rômulo Mafra Cruz, assombra o país. “Infelizmente o falecimento se soma a inúmeros homens negros que fazem parte de uma estatística gritante no país desde 2016”, afirma, citando dados do Ministério da Saúde que revelam que adolescentes e jovens negros, na faixa etária de 10 a 29 anos, têm um índice de suicídio até 45% maior do que qualquer outro grupo. “Precisamos falar sobre políticas públicas e agendas permanentes para esse grupo em específico, URGENTE”, clama o psicólogo.
O grito de Manoel repercutiu em ativistas e diversos profissionais de saúde mental, sobretudo aqueles que olham para questões raciais. O psicanalista Claubecyr Barbosa postou em seu Instagram:
“Nós não estamos falando de um episódio específico, não é algo que aconteceu, é algo que vai acontecendo. O racismo não é um evento, ele é um processo, uma repetição. Como escreveu Fanon, ‘o corpo negro é constantemente devolvido em si mesmo como um problema’. O racismo é isso: esse elemento que insiste, que retorna e fere de novo. Talvez a pergunta não seja o que aconteceu com ele, mas o quanto uma vida aguenta ser atravessada pela mesma dor e quantas feridas sociais ainda fingimos não ver”.
O balde que transborda
O escritor James Baldwin, em uma frase resgatada por Rômulo durante a entrevista, resumiu uma sensação coletiva: “ser negro e minimamente consciente, é viver constantemente com raiva.” Essa raiva, é alimentada diariamente por um sistema que perpetua o ódio e a discriminação. Nenhuma pessoa negra no Brasil, ele reforça, está livre de micro e macroagressões diárias. “Muitas vezes algumas fingem não se importar. Mas os danos psicológicos estão lá. De alguma forma irão se manifestar. As microagressões que parecem não nos impactar, na soma, no final do dia, é como um balde enchendo com gotas, vai transbordar”, conta Rômulo.
Esse transbordamento tem nome: burnout racial e trauma racial. São conceitos que descrevem a exaustão física e mental causada pela exposição contínua ao estresse do racismo. “Viver constantemente com raiva e em estado de alerta adoece. Isso é que precisa ser mudado”, pontua Rômulo.
Para homens negros, esse estado de alerta é ainda mais específico e perigoso. A hipervigilância se torna uma estratégia de sobrevivência. Rômulo é categórico ao afirmar que, para a sociedade, a cor da pele precede qualquer outra característica. “Para um homem negro, status ou boa aparência não anula o olhar social”, diz ele. Andar na rua e perceber alguém mudando de direção ou puxando a bolsa, ou ser rotulado como “agressivo” e “afrontoso” ao se posicionar no ambiente de trabalho são exemplos de como essa tensão se materializa. Esse estado de antecipação negativa constante é uma forma crônica de ansiedade que, se não tratada, pode agravar-se sistematicamente e, em últimas circunstâncias, levar ao suicídio.
O custo invisível: burnout racial entre profissionais negros de saúde mental
Manoel Rocha era psicólogo. Sua morte levanta também uma dolorosa questão sobre a saúde mental dos próprios profissionais negros que estão na linha de frente do combate ao racismo e que atuam no campo da saúde. “É importante lembrar que ser psicólogo(a) não nos livra de problemas, adoecimentos, de falhas e principalmente de sofrer racismo”, destaca Rômulo.
Ele descreve um processo de “revitimização silenciosa”, no qual o terapeuta negro, ao se deparar com as dores de seus pacientes, revive suas próprias experiências com o racismo. “O terapeuta negro performa para cuidar do paciente, silenciando possíveis gatilhos que ali se apresentam. Por isso é importante e necessário a consciência em não minimizar o cuidado da própria saúde mental”, alerta. A isso, soma-se a “cobrança pela performance perfeita”, mais um fator de adoecimento que pode levar à culpa e ao esgotamento.
Em suas redes sociais, o psicanalista Omoloji Agbara partiu do provérbio Bantu “Ninguém chora a morte sozinho” para lembrar que
“Ser psicólogo ou psicanalista negro não nos livra do racismo, da estrutura racial, das violências raciais, da marginalização, da inferiorização, do auto-ódio, do ódio por ser um homem negro, da violência objetiva, subjetiva e social. Ser psicólogo ou psicanalista negro não nos salva da nossa própria humanidade.”
Um chamado à ação coletiva
Diante de um sistema que adoece, a solução não pode ser apenas individual. Rômulo critica a falta de eficácia das políticas públicas existentes e a ausência de agendas específicas para o combate ao suicídio de homens negros.
Outro desafio neste sentido é a inconsistência de dados comparativos entre diferentes regiões do país. As estatísticas ainda são dispersas e não possuem um padrão único. A mudança, para ele, exige uma dupla articulação: “Movimentar e cobrar o poder público progressista para atentar e construir essas agendas é necessário. Mas antes de tudo: uma organização coletiva da população negra quanto à consciência dessa necessidade”, defende. Ele conclama os movimentos da sociedade civil a pautarem o tema com a urgência que ele merece, finalizando com uma reflexão contundente sobre o presente.
“Homens negros estão morrendo por violência policial, nas ruas, por suicídio… Se em algum momento, o projeto de extermínio de corpos negros foi ‘invisível’, estamos a cada dia vendo que ele é real, material e está acontecendo. Cada geração precisa entender sua missão, encontrá-la, cumpri-la ou traí-la.”
Como bem lembrou o rapper Djonga em suas redes sociais “O racismo conseguiu acabar com a cabeça de quem ajuda as outras pessoas a cuidar da cabeça. Na moral, não existe nenhuma doença pior que isso pra sociedade. São anos e anos que estou numa posição ‘melhor’ e ainda assim sigo passando por certas paradas que quem não entende nem acreditaria, o problema é que não é só comigo ou com ele, é com todo mundo que carrega esse ‘defeito’ que é simplesmente ter nascido preto.”
Falar sobre o suicídio não é ceder à espetacularização que este tipo de situação pode ter na mídia, mas abordar um tema que precisa ser falado, tratado e usado como pauta para mudanças estruturais. Como escreveram vários de seus amigos, que Manoel seja semente pela saúde mental dos homens negros.
Precisa de ajuda?
Se você está passando por um momento difícil, procure ajuda. O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, email e chat 24 horas todos os dias. Ligue 188.
O Instituto DACOR é uma organização que produz dados e análises para o combate ao racismo estrutural no Brasil.
