
A Festa de Nossa Senhora da Boa Morte, realizada anualmente em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, entre os dias 13 e 17 de agosto, é uma das celebrações mais emblemáticas da religiosidade popular brasileira. Essa manifestação, entrelaçando o catolicismo e as religiões de matriz africana, é mantida pela Irmandade da Boa Morte, formada exclusivamente por mulheres negras.
A devoção à Nossa Senhora da Boa Morte remonta ao século XIX, quando, em Salvador, mulheres negras formaram a Irmandade na tentativa de pedir o fim da escravidão e garantir “uma boa morte” após os sofrimentos vividos. Perseguidas, elas migraram para Cachoeira por volta de 1820, estabelecendo-se na histórica “Casa Estrela”. Ao longo dos séculos, essa irmandade se tornou símbolo de resistência, dignidade e solidariedade entre mulheres negras.
Patrimônio cultural
Desde 2010, a Festa da Boa Morte é oficialmente reconhecida como Patrimônio Imaterial da Bahia, destacando sua importância religiosa e cultural, além de seu papel histórico na celebração da memória afro‑brasileira.
A festa
De 13 a 17 de agosto a festa acontece em etapas: o dia 13 homenageia as irmãs falecidas com procissão e ceia branca; no dia 14 há procissão e missa pela dormição de Nossa Senhora; no dia 15, procissão alegre pela assunção, seguida de música, dança e ceia comunitária.
Simbolismo
As cores, roupas e alimentos têm significados profundos: o branco representa luto e memória, o preto simboliza a virada para o espiritual, e o vermelho denota celebração da força e liberdade. A música e dança, iniciadas após o terceiro dia, expressam renascimento e alegria.
Turismo e Economia Solidária
A festa atrai entre 15 mil e 60 mil visitantes, potencializando o turismo cultural de Cachoeira, movimentando a economia local e promovendo a valorização da cultura afro‑brasileira com sustentabilidade e respeito.
Identidade e legado
A Festa da Boa Morte continua sendo um símbolo de resistência negra, espiritualidade e identidade. Organizada por mulheres negras, católicas e ligadas ao candomblé, ela reafirma a ancestralidade e a fé como caminhos de preservação comunitária.