CARNAVAIS AFRO-BRASILEIROS: UMA CELEBRAÇÃO DA HERANÇA AFRICANA PARA ALÉM DO ÓBVIO

O Carnaval brasileiro não nasce só do brilho, do samba televisionado ou dos grandes circuitos. Ele nasce da ancestralidade. Por todo o país, existem carnavais que contam histórias negras de resistência, fé, identidade e celebração. Do Maracatu em Pernambuco aos blocos afro do centro-oeste, dos quilombos do Amapá às escolas de samba do Sul, a influência africana pulsa em cada tambor, cortejo e dança. São manifestações que atravessam séculos, preservam memórias e reafirmam que a cultura negra não é detalhe do Carnaval brasileiro.

PERNAMBUCO

“Maracatu e Frevo: a força ancestral de Pernambuco. O Maracatu traz cortejos com reis, rainhas e calungas que simbolizam ancestralidade (Nação/Baque Virado e Rural/Baque Solto). Já o Frevo mistura influências como polca, maxixe e capoeira, transformando resistência em dança vibrante.

MARANHÃO

Bumba Meu Boi: a riqueza cultural do Maranhão. Vai muito além das festas juninas e também marca o Carnaval. A festa mistura influências africanas, indígenas e europeias e narra a morte e ressurreição do boi. Seus ritmos e personagens revelam a forte presença africana.

CARNAVAIS QUILOMBOLAS

Em comunidades quilombolas, o Carnaval é uma expressão de resistência e afirmação de identidade. No Curiaú, em Macapá, o bloco Kulembé leva a cultura afro-amapaense às ruas. Na Bahia, o Carnaval do Quilombo Santo Inácio celebra tradição, memória e luta.

Cachoeira (BA): pérola do Recôncavo

Cachoeira, cidade histórica do Recôncavo Baiano, é um dos berços da cultura afro-brasileira. Seu Carnaval é uma celebração autêntica e profundamente ligada às tradições religiosas de matriz africana. A Festa da Boa Morte, que acontece em agosto, é um dos pontos altos do calendário cultural da cidade, mas sua influência se estende ao Carnaval, com seus cortejos, afoxés e a presença marcante das mulheres negras, guardiãs da ancestralidade.

Maceió (AL): a força do cortejo afro

Em Maceió, grupos de maracatu e afoxé celebram a música afro-brasileira. O Ilê Aiyê, primeiro bloco afro do país, tem uma forte conexão com Maceió como parte de sua circulação para divulgar a cultura afro-brasileira e também marca presença no carnaval, reafirmando décadas de valorização da identidade negra.

Porto Alegre: a negritude invisibilizada que resiste

O Carnaval de Porto Alegre tem raízes na resistência do povo preto. A Sociedade Os Congos destacou-se no século XIX, e as escolas de samba atuam como “quilombos urbanos”, preservando a cultura negra gaúcha. O Batuque, um culto afro do Rio Grande do Sul, ganhou visibilidade nacional em 2026, quando a Escola de Samba Portela apresentou um enredo sobre a valorização da negritude gaúcha, resgatando a identidade negra do Sul do Brasil.

Jaguarão (RS): a “Salvador do Sul” gaúcha

Na fronteira com o Uruguai, a cidade de Jaguarão ganhou o apelido de “Salvador do Sul” por sua celebração vibrante. Com 27 mil habitantes, ela reúne 30 mil foliões para o carnaval e abriga três escolas de samba: A Sociedade Beneficente e Recreativa Estrela D’Alva (de 1964), a Aguenta se Puder (1966) e a Palestina (1992). O Carnaval de Jaguarão é um exemplo de como a herança africana permanece viva no interior do Sul, frequentemente invisibilizada pela historiografia tradicional que nega a presença negra na região.

Curitiba (PR): Carnaval como justiça social

Blocos afro como o Pretinhosidade transformam o Carnaval de Curitiba em espaço de afirmação e diversidade. Provando que a capital paranaense tem muita resistência preta, eles reúnem diferentes gerações, mulheres e corpos diversos para celebrar cultura popular e identidade negra.