Semana da Mulher – O Tempo que Não nos Pertence

O custo invisível de ser “forte”.

Existe um tempo que raramente é reconhecido como nosso. Um tempo dedicado ao cuidado, à sustentação da vida, à manutenção do cotidiano e que, muitas vezes, não é visto como trabalho.

Falar sobre isso é falar sobre desigualdade, sobre história e sobre o peso silencioso que recai, sobretudo, sobre mulheres negras.

A economia que se sustenta no nosso tempo

Cozinhar, limpar, organizar a casa, cuidar de crianças, idosos e familiares são atividades que sustentam a sociedade diariamente. Sem elas, nenhuma outra esfera produtiva se mantém. No entanto, por serem associadas ao espaço doméstico e ao papel social feminino, essas tarefas seguem sendo desvalorizadas economicamente. No Brasil, se o trabalho doméstico e de cuidado fosse remunerado, ele representaria cerca de 11% a 13% do Produto Interno Bruto, segundo dados da Fundação Getulio Vargas, 2023. Trata-se de uma força econômica concreta, expressiva e essencial, mas que permanece majoritariamente invisível nas estatísticas formais e nas políticas de reconhecimento.

Quando observamos a distribuição desse tempo de cuidado, percebemos que a desigualdade não é apenas de gênero, mas também racial. Mulheres negras dedicam, em média, 1,6 hora a mais por semana a afazeres domésticos do que mulheres brancas, de acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e do DataCuidados. Esse dado revela como o tempo, um dos recursos mais valiosos que possuímos, é distribuído de maneira desigual. São horas que poderiam ser direcionadas ao descanso, à formação profissional, ao lazer ou ao autocuidado, mas que acabam absorvidas por uma dinâmica histórica de sobrecarga.

Uma lógica histórica de disponibilidade permanente

Ao longo da história, construiu-se a expectativa de que o corpo da mulher negra esteja sempre disponível para servir e cuidar. Essa lógica se manifesta na naturalização da sua presença nos espaços domésticos, no cuidado com as famílias de outras pessoas e na responsabilidade emocional que frequentemente assume. Cuidamos da casa dos outros, dos filhos dos outros e das dores dos outros, enquanto o nosso próprio cansaço é minimizado ou ignorado. Aquilo que muitas vezes é chamado de vocação para o cuidado é, na verdade, resultado de uma estrutura social que ainda não aprendeu a dividir responsabilidades de forma justa e equitativa.

Trabalho invisível e trabalho remunerado

Os dados reforçam essa realidade. No Brasil, 69,9% das trabalhadoras domésticas e cuidadoras são mulheres negras, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 2025. Isso significa que elas ocupam majoritariamente os postos formais de cuidado fora de casa e, ao retornarem para seus próprios lares, continuam exercendo as mesmas funções sem qualquer remuneração. Essa dupla, e muitas vezes tripla, jornada ultrapassa o cansaço físico. Ela representa a expropriação do tempo pessoal, a limitação de oportunidades e a dificuldade de acessar espaços de desenvolvimento, descanso e autocuidado.

O custo da fortaleza

Ser reconhecida como mulher forte pode soar como elogio, mas carrega um custo profundo. A fortaleza atribuída às mulheres negras frequentemente se traduz na ausência de permissão para demonstrar vulnerabilidade, pedir ajuda ou simplesmente descansar. O preço dessa imagem é o direito ao próprio tempo, à fragilidade e ao cuidado recebido. Sustentar tudo e todos, inclusive quando se está exausta, torna-se uma expectativa social silenciosa que compromete a saúde física, emocional e mental.

Fomos ensinadas a ser o porto seguro de todos ao nosso redor, a resolver, organizar e acolher. No entanto, raramente nos perguntam quem sustenta a nossa própria estrutura. Se o cuidado constante cessasse por um instante, o que restaria além do cansaço acumulado? Retomar o próprio tempo não é um gesto egoísta. É um movimento de reconstrução e de reconhecimento da própria humanidade. É a possibilidade de se reconectar com desejos, limites e sonhos que ficaram em segundo plano. Existir não pode ser apenas servir. Também precisa significar viver com dignidade, autonomia e direito ao descanso.