Por Danilo Cesar Vitorino e Vidal Mota Jr.
Ao entrarmos no LinkedIn, é provável que encontremos diversas publicações enaltecendo, em alguma medida, virtudes como resiliência, força de vontade, mérito e uma valorização do aprendizado contínuo ao longo de toda a vida. Por mais que o chamado lifelong learning possa ser considerado positivo, para muitos, estudar e trabalhar — ou melhor, trabalhar durante a vida escolar — não é uma escolha ou estilo de vida, e sim uma necessidade. E essa necessidade, os números mostram, não está distribuída igualmente entre estudantes brancos e negros. Precisamos discutir a realidade dos jovens que trabalham e estudam. Quem são estes estudantes e quais as desigualdades entre eles?
O que os números do SAEB revelam
Em 2023, apenas 46,5% dos estudantes de Ensino Médio participantes do SAEB não gastavam nenhuma hora do seu dia trabalhando fora de casa, enquanto 42,1% gastavam mais de duas horas por dia — uma situação, por si só, alarmante. Mas é quando cruzamos esse dado com raça e sexo que a desigualdade racial se torna inegável:
- Sem trabalho fora de casa: apenas 42,2% dos estudantes pretos e 41,5% dos indígenas não trabalhavam, contra 47,9% dos brancos e 47,2% dos pardos — uma diferença de quase 6,4 pontos percentuais entre pretos e brancos.
- Estudantes do sexo masculino que trabalhavam fora de casa: 57,5% entre os brancos, contra 64,8% dos pretos e 66,1% dos indígenas — um hiato de até 8,6 p.p.
- Trabalho doméstico entre meninas e mulheres: mais de 95%, quase 8 p.p. a mais do que os homens — e, dentro desse recorte de gênero, são as mulheres pretas e pardas as que mais concentram essa carga.
Ou seja: ser negro ou indígena e estudar no Ensino Médio já significa, estatisticamente, ter mais chance de dividir a atenção entre escola e trabalho remunerado — e, se for mulher negra, também entre escola, trabalho e afazeres domésticos.
(Vale registrar, ainda que não seja o foco central deste texto, que a própria autodeclaração racial nesses levantamentos mereceria um olhar mais atento em outra ocasião.)
Pobreza, evasão e o gargalo do Ensino Médio
Esses números não existem isoladamente. Dos jovens em situação de extrema pobreza no Brasil, 74,9% são negros¹. É essa urgência de complementar a renda familiar que empurra tantos adolescentes negros para o mercado de trabalho ainda muito cedo², frequentemente em empregos informais, com jornadas imprevisíveis e exaustivas. O resultado recai justamente sobre o Ensino Médio — um gargalo persistente para a juventude negra³ —, onde cansaço extremo, reprovações por falta e evasão escolar se tornam realidades comuns.
Uma desigualdade que não fecha no Ensino Superior
O problema não termina ao final da educação básica — ele se aprofunda. Enquanto famílias de classe média e alta costumam sustentar financeiramente os filhos até a conclusão da formação, nas camadas populares o Ensino Superior precisa ser “bancado” pelo próprio estudante². Para a maioria dos jovens negros que conseguem entrar na universidade, o trabalho em tempo integral não é opcional: é a única forma de pagar transporte, alimentação e, quando a instituição é privada, a mensalidade — uma tripla jornada que compromete o desempenho acadêmico e o acesso a estágios qualificados.
Os números da última década expõem a lentidão dessa mudança:
| Período | Jovens brancos/amarelos (18–24 anos) | Jovens negros (18–24 anos) | Diferença |
|---|---|---|---|
| 2012 | 28,9% | 11,6% | 17,3 p.p. |
| 2022 | 34,5% | 18,1% | 16,4 p.p. |
Em uma década, a taxa líquida de matrícula no Ensino Superior cresceu para ambos os grupos — mas o hiato racial caiu apenas 1 ponto percentual³. No ritmo atual, a equidade de acesso ao Ensino Superior entre jovens negros e brancos está a décadas de distância.
Quando nem estudar nem trabalhar é uma opção
Há ainda uma parcela da população para quem estudar ou trabalhar sequer é uma possibilidade. A condição de estar simultaneamente sem estudar e fora da força de trabalho (NEFT) atinge de forma desproporcional as mulheres negras de baixa renda⁴: na faixa de 18 a 24 anos, 25,2% das mulheres negras encontram-se nessa situação — uma em cada quatro. A principal explicação é a sobrecarga de afazeres domésticos e de cuidado (filhos, parentes doentes), agravada pela falta de rede de apoio e pela insuficiência de creches públicas³,⁴.
O custo que os números não capturam
O racismo cotidiano não atua apenas nas barreiras financeiras ou de tempo mostradas acima. Há um desgaste subjetivo que acompanha a juventude negra ao longo de toda a trajetória educacional e profissional: exposição constante ao perigo, microagressões estéticas na escola, constrangimentos explícitos no mercado de consumo e na rua. Esse desgaste psicológico afeta diretamente a saúde mental, a autoestima e a permanência desses jovens nos espaços de formação e trabalho⁵,⁶ — um custo que nenhuma estatística de matrícula ou renda consegue, sozinha, traduzir.
O que fazer com esses números
É preciso encarar com honestidade a realidade que aflige milhões de brasileiros negros e negras. Por um lado, não é aceitável, para o desenvolvimento discente, que se divida a atenção entre estudo e trabalho — as condições econômicas, sociais e financeiras que moldam o contexto da juventude, especialmente negra, precisam evoluir a ponto de tornar essa divisão desnecessária. Por outro, não é razoável esperar que essas condições mudem da noite para o dia. São necessárias medidas urgentes de freio e mitigação dos efeitos, sem perder de vista o horizonte de extinguir essa realidade.
Para os jovens que já trabalham e estudam, não é retirando essa fonte de renda que o problema se resolve. É preciso oferecer algo em troca ou modificar as jornadas em favor do estudante: horários flexíveis e regimes híbridos ou remotos para quem está no ensino superior ou técnico; para quem está no Ensino Médio regular, bolsas de iniciação científica, auxílio-educação, incentivos para conclusão das etapas escolares e cursos de capacitação. Programas recentes, como o Pé-de-Meia, vão nessa direção — ainda que mereçam uma análise mais aprofundada em outro momento.
Não podemos, tampouco, negligenciar as especificidades que afetam mais as estudantes negras: a concentração do trabalho doméstico e do cuidado atinge de forma particular as meninas e mulheres que engravidaram (ou não) durante a formação acadêmica. Uma rede de apoio à parentalidade vai além de pessoas dispostas a ajudar — exige creches de qualidade, apoio financeiro extra às estudantes que se tornaram mães, e a cobrança para que os homens cumpram seu papel na economia do cuidado.
Por fim, é inaceitável um mundo em que o racismo faz parte do cotidiano — e o enfrentamento disso não pode se limitar a algo interno, individual ou passivo. O “pacto narcisístico” da branquitude, pelo qual as pessoas se omitem diante do preconceito, precisa ser ativamente desmontado, para que a juventude negra — ao acessar o mercado de trabalho, precocemente ou no tempo certo — não sofra as violências comuns a ambientes escolares e corporativos. Treinamentos, palestras e exposições sobre racismo não bastam. Fortalecer canais efetivos de denúncia contra comportamentos racistas travestidos de piadas é indispensável para construirmos ambientes verdadeiramente acolhedores à população negra.
Referências
- Marinho, F. R., Trabalho, I. E. e, IEDE & UNICEF. Juventudes Brasileiras Minorizadas: Análises de Educação e Trabalho Para Incidência Em Políticas Públicas. https://fundacaoitau.org.br/observatorio/biblioteca/juventudes-brasileiras-minorizadas-analises-de-educacao-e-trabalho-para-incidencia-em-politicas-publicas (2026).
- Abramo, H. W., Venturi, G. & Corrochano, M. C. Estudar e trabalhar: um olhar qualitativo sobre uma complexa combinação nas trajetórias juvenis. Novos Estudos – CEBRAP 39, 523–542 (2020).
- Menezes, V. M. O. de & Santos, R. S. dos. Juventude, educação e trabalho no Brasil (2012-2022). Tempo Social 35, 137–160 (2023).
- Pires, A. T., Senkevics, A. S. & Sposito, M. P. Jovens, educação e trabalho no Brasil: desigualdades combinadas de gênero, raça e classe. Cadernos CEDES 46, (2026).
- Panta, M. & Silva, M. N. da. Os impactos do racismo na trajetória de estudantes do ensino médio: experiências e percepções de negros e brancos. Sociologias 26, (2024).
- Corsino, L. N. & Zan, D. D. P. e. Juventude negra, Ensino Médio e democracia: a luta pela escola. Educar em Revista 36, (2020).
