A urgência dos dados: a importância do recorte racial e de gênero para a promoção de políticas públicas e combate ao racismo e machismo estrutural

 

Gabriely Araujo

Nas últimas semanas, tive o privilégio de de estar em encontros potentes de movimento de mulheres negras, em uma chegança da organização da Marcha de Mulheres Negras paulista e também no Seminário Lélia González: Políticas de Reparação, Justiças e Bem Viver para Mulheres Negras, com a presença de figuras como Nilma Bentes, Cida Bento, Erika Hilton e Andreia Coutinho, ambos realizados em São Paulo. 

Nesses encontros, pude estar próxima e ouvir figuras históricas do movimento de mulheres negras e novas referências para a luta das mulheridades, neste julho em que se celebra o dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, e o dia Nacional de Teresa de Benguela. 

No primeiro, ouvi Astrogilda Pereira, que no alto dos seus mais de 90 anos liderou um processo de oficinas para mulheres negras no tema da Constituição, sob uma perspectiva antirracista e feminista. Esse processo resultou na produção de uma Cartilha em quadrinhos para discutir sobre direitos e a constituição brasileira, o Gira Jurídica, disponível aqui. Confesso que não a conhecia. Sua altivez e lucidez me emocionaram, assim como aquele momento, em uma roda de mulheres das mais diferentes idades e localizações, no centro de São Paulo, aquilombando-se e refletindo sobre estratégias para mais uma Marcha de Mulheres Negras paulista. 

No segundo, não pude deixar de me arrebatar e agradecer por poder ouvir e ver pela primeira vez pessoalmente Nilma Bentes, uma das cofundadoras da primeira Marcha de Mulheres Negras, em 2015, e sua fala potente sobre a sua compreensão de bem viver. “O bem viver é uma proposta praticamente ‘alterativa’, eu compreendo dessa forma. Uma proposta alternativa ao neoliberalismo. à mercantilização da natureza, ao consumismo, em favor do coletivo acima do individual”, compartilhou Nilma no encontro. 

Nesses dois momentos, nas falas e nas argumentações dessas e de outras mulheres, não pude deixar de notar a importância dos dados e evidências sobre a realidade das mulheres negras em suas falas e argumentações. 

Em um Brasil em que somos maioria, o racismo estrutural e o machismo provocam disparidades graves, incluindo maiores taxas de mortalidade materna, insegurança alimentar e desigualdade salarial. E se formos pensar em nossa representação política, temos avanços, mas ainda temos pouca representatividade no legislativo, executivo e nas urnas. 

As urnas mostram que, em 2016, as mulheres negras obtiveram 6,20% dos votos válidos, número que saltou para 8,89% em 2020. Esse avanço representou um acréscimo superior a 2,3 milhões de votos nominais voltados às candidatas negras ao longo dos dois últimos pleitos municipais, superando a margem que determinou o resultado da eleição presidencial de 2022. Esse cenário deixa nítido que os principais obstáculos para o acesso de mulheres negras aos mandatos parlamentares decorrem de entraves estruturais da própria institucionalidade.

No entanto, ainda faltam ainda recortes que possam trazer evidências e apoiar políticas públicas, como para as mulheres negras LBT (lésbicas, bissexuais e trans), dados de saúde, educação, entre outros recortes. Em maio, por exemplo, a ONG Criola participou de uma conciliação com a União para cobrar medidas efetivas relacionadas à execução do Programa de Proteção e Promoção da Saúde e da Dignidade Menstrual, cobrando, entre outras questões, de dados com recorte racial sobre a dignidade menstrual.

Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, divulgados nesta semana, mostram, por exemplo, um aumento expressivo dos feminicídios, ou seja, de assassinatos de uma mulher cometidos por razões de gênero. Os números demonstram um novo recorde histórico, com alta de 4% em 2025 (1.571 vítimas). 65,1% são mulheres negras.

Apesar desse dado com recorte racial, o boletim “Elas vivem: a urgência da vida”, lançado em março de 2026 pela Rede de Observatórios da Segurança, compartilha  que 86,7% dos casos de violência de gênero monitorados não trazem qualquer registro de raça ou cor das vítimas. Essa ausência de dados é ainda mais profunda em estados como o Piauí e o Maranhão, nos quais a maior parte dos registros não contém essa especificação.

Tornar tangíveis os dados de raça e gênero pode possibilitar ações que possam mitigar marcas e dores trazidas pelo machismo e racismo estrutural. Seguimos buscando o protagonismo feminino negro, apesar dos obstáculos sistêmicos. A transformação social exige a formulação de políticas e soluções que levem em conta os dados e evidências, ouça os territórios e as nossas diversidades, para que de fato possamos alcançar o bem viver.